Hoje veio-me à cabeça algo que fez parte da minha adolescência e certamente de muitas outras também. É semelhante a um instrumento de tortura (quase aposto que a inquisição tinha brinquedos destes) uma coisa horrenda e demoníaca que infernizou tempos da minha vida que podiam ter sido gloriosos mas não o foram graças ao maldito aparelho dentário!
Lembro com pesar no coração o dia em que fui ao dentista para colocar o aranhiço na minha cavidade bocal... O doutor estava em êxtase ao contrário de mim que sempre fui ao dentista à força, quase de rastos para ser mais sincera. As Quartas-Feiras eram um sufoco desde que levantava o cu da cama até voltar a adormecer e pensar que seria feliz uma vez mais, mas somente até à próxima ida ao mundo das trevas! Mas voltemos ao dia do juízo final... Fui recebida pelo Dr. Sérgio (era assim o nome do carcereiro) com um olá de orelha a orelha que ele fazia sempre questão de me mostrar e que no fundo não passava de um lembrete para que eu não me esquecesse que os dentes dele estavam mais direitos do que os meus. Encaminhei-me para a maca, ou lá como se chama aquilo, e ele examinou a minha boca sempre com a mesma curiosidade e deleite das consultas anteriores. Aposto que se conseguisse ouvir o que ia na cabeça dele ouviria algo do género: "Dentes tortos! Este dia vai ser em cheio!"A hora seguinte não foi nada bonita... Tenho a dizer-vos que foi das piores experiências que alguma vez tive! Sentir que nos estão a colocar ferros na boca sem que possamos ver o que se está a passar é hediondo. Apenas se ouvia aqueles "CLANK", "CLIK" enquanto na minha cabeça se desenrolavam cenas nada belas e tudo isto porque algures por esses tempos tinha visto uma curta metragem de arrepiar que dava pelo nome de O Dentista. Por isso já podem imaginar o meu pânico.
O dentista continuava deliciado com um entusiasmo quase orgásmico, enquanto eu volta e meia lá dava uns guinchos aflitivos para ver se o demovia mas não, ele estava feito com a minha mãe desde o inicio! Depois daquilo que me pareceu uma eternidade ele lá terminou passando-me o espelho de seguida. Aí, nesse momento que jamais esquecerei, pude vislumbrar a Torre Eiffel dentro da minha própria boca e admito que nunca mais fui a mesma. O tipo estava extasiado com a sua obra de arte e tinha o atrevimento de dizer que não me ficava nada mal, pois claro, não era na boca dele! Olhei para a minha mãe e ela não me pareceu muito confiante mas lá sorriu meia arrependida, aposto, mas as minhas contas com ela iriam ajustar-se mais tarde quando a Era da Prótese Dentária chegasse.
Hoje andam por aí anúncios na televisão daquela Corporation Dermoestética que para além de tirar banhas a gordos também faz aparelhos em acrílico para que as pessoas se sintam menos constrangidas. No meu tempo não era nada disso, era uma armação de sucata que o meu dentista tentou tornar mais bonita quando me ofereceu elásticos de cores choque variadas para os braquetes! Óbvio que declinei dando um falso sorriso metálico de simpatia, já me bastava parecer um Transformer, quanto mais virar um robot na moda dos anos 80.
Já se passaram uns anos desde que o soldadinho de chumbo desapareceu da minha bocarra e sabem uma coisa? Tenho os dentes tortos na mesma! Tortos não, eles são direitos, mas os dentitos da frente estão mesmo cá na frente porque é o lugar que tenho para eles! Estas eram as palavras amigas do dentista quando na sua infinita sapiência disse que não havia muito mais a fazer por mim. Mas onde é que ele queria que eu tivesse lugar para eles, na testa?!
Espero que o Dr. Sérgio arda no inferno por me ter destruído a adolescência com uma armação metálica porque não há uma única vez que não passe pela escultura da anémona em Matosinhos sem sentir que com 13 anos eu devia ter a boca com um aspecto daqueles!


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